"Docinho light para comer sem culpa."
"Dicas de carboidratos para comer sem culpa."
"Lanches rápidos para comer sem culpa."
"Receitas magrinhas, gostosas e sem o peso da culpa."
Culpa, culpa, culpa...
A indústria da dieta e suas culpas de conduta.
A publicidade-para-a-mulher e suas culpas estamparas nos corpos mais bonitos do mundo.
A conversa entre amiga e suas culpas de hoje é de ontem.
O final de semana e suas culpas continuas.
Uau... Quanta culpa!
Quando será que instituímos que comer o que se gosta é tamanho mal, que nos sentimos culpados? (Mais ainda, que nos sentimos culpadas?)
Será que já paramos mesmo para pensar o que é, originalmente, a culpa?
Me permita aqui - ela é, por definição, (1) responsabilidade por dano, mal, desastre causado, e; (2) falta, delito, crime.
Comer um bombom é um desastre? Tomar vinho com o esposo é um delito? O bolo de aniversário do colega no escritório é um dano? Sair da dieta é crime? Que mal todo é esse, que tanto vivemos?
Entendo que ter escolhas que não nos faz bem pode ser realmente um problema. Esquecer de tomar um antibiótico no horário, fumar, beber em excesso, negligenciar o protetor solar, dirigir escrevendo mensagem no celular, descuidar do colesterol alto e da pressão fora do controle... Sim, de fato, podem todas serem consideradas escolhas ruins e, no limite, podem levar a culpa - e, claro, à consequências estrondosas.
Mas, sair da dieta lá e cá... Seria para tanto? Tão deletério que se revela motivo de culpa? Sério?
Creio que, no mesmo momento que abraçamos os ideias de aparência (corpo segui, slin, skinny-freak e fitness) instituímos de tabela a culpa.
Hoje, por aqui, ela foi nivelada por baixo e todo mundo a compartilha.
Quantas não são as vezes que escuto de um alguém querido, que se esforça lindamente para ser uma boa pessoa, mais saudável, mais disposto e mais feliz consigo mesmo a frasezinha "ah, mas aí, depois de comer, me dá uma culpa..."?
Garanto, são muitas. E, de verdade, me parece um paradoxo constante: como se fazer mais feliz com tanta culpa? Como estar bem consigo mesmo e, ao mesmo tempo, cumprir todos os deveres (e contornos) que o mundo nos cobra?
Amiga da disciplina exagerada e do #foco, a culpa é dura, mal-educada e não pede licença. Nos põe pra baixo, nos entristece e nos desmotiva.
Queria tanto conseguir ter uma voz persuasiva o suficiente para explicar que o corpo pouco entende algumas diferenças de consumo, que "engordamos" mais na privação do que no conforto, e que a fisiologia aceita bem as variações de rotina quando a disciplina (não exagerada) e o #foco (em ser feliz) são mais constantes que a culpa.
Ah, como eu queria... Como eu queria dias com menos culpa.






