quarta-feira, 24 de abril de 2013

A deturpação da detox.

Com todo o respeito aos colegas de classe - e sem a menor pretensão em julgar condutas profissionais - inicio uma breve consideração a respeito das "dietas detox".

Na teoria, a dieta desentoxicante é uma restrição alimentar (expressiva), aliada a alimentos com propriedades importantes no hepatócito (com a finalidade de solubilizar compostos tóxicos, para que este sejam passíveis da eliminação orgânica). Inicialmente era aplicada como coadjuvante no tratamento de indivíduos intoxicados por metais pesados.

No universo dos aditivos químicos (alimentares, ou não; propositais, ou não), a dieta desentoxicante recebeu outra aplicação: na melhora da qualidade de vida e estado geral de uma população constantemente exposta a xenobióticos.

Pois bem. Essa era a sua função até "cair na moda".

A dieta, agora denominada carinhosamente de "detox", tem, sobretudo, a qualidade (mercadológica) de "reduzir 3kg em 15 dias".

De fato, uma dieta que propõe uma "limpeza" no organismo, com a retirada de irritativos e aditivos alimentares (presentes em praticamente todos os alimentos), rica em fibras e em água (características próprias das verduras e dos legumes), terá (realmente) um efeito emagrecedor (aliás, qual a real novidade aqui?).

 Ainda que não seja esse o objetivo principal da dieta, isso tem bastante chance de acontecer... Um efeito colateral que vira objetivo principal.



http://corpoacorpo.uol.com.br/dieta/dieta-de-emergencia/dieta-detox-limpa-o-organismo-e-enxuga-3-kg-em-15-dias/1902

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Machete & conteúdo!

A manchete chama atenção: Sete dicas para perder barriga.

Interessante é que neste caso, assim como em muitos outros, a manchete não passa de uma promessa que não apresenta soluções significativas no corpo do texto. A manchete, enquanto tal, se faz bastante efetiva: convida e estimula a leitura. O conteúdo no entanto não passa de um mero apanhado de informações que, enfeitada pelos títulos das suas fontes, não serão capazes de "tirar a gordura da barriga". 

Pois é... Adivinha só... Não há milagre para perder a barriga! 

1 - Faça atividade física + a dieta; (segundo os especialistas, a combinação é necessária!)
2 - Faça atividade física aeróbica;
3 - Na adianta só fazer abdominais;
4 - Tenha uma boa postura;
5 - Faça atividade física regular;
6 - Cada pessoa tem uma tendência individual ao acúmulo de gordura; (mulheres mais do que homens);
7 - Melhor o estilo de vida: não beba, não fume, não coma errado e faça exercícios;

Ok... Passamos pelas "sete dicas" e... Bom... O que fato mudou? 
Primeiro, destes tópicos, temos apenas três dicas: fazer exercício, ter uma boa postura e cultivar hábitos saudáveis. 
Segundo, qual a real novidade nestes tópicos?
Terceiro, como obter os resultados para "perder barriga" como a manchete me prometia?

No final, a sensação promovida nada mais é do que um "Tá bom..." de um leitor enganado pela manchete. E quantas vezes isso não acontece? Quantos produtos não consumimos desta forma? Quantas vezes não temos expectativas construídas assim?

Sim, perda de gordura corporal não é uma tarefa simples. É preciso obter um balanço energético negativo (gastar mais do que consumir) e para isso, ou se gasta mais, ou se consome menos, ou ambos... Mas um não exclui a importância do outro. Mesmo assim, no final de dieta e malhação, nada garante que a gordura específica do abdome tenha sumido... 

... Mas certamente, em outra revista, ou outro site seja possível de encontrar mais "dicas para perder a barriga".

PS: Por que será que não foi consultado um nutricionista a respeito deste tema?





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Ah, os ideais...

Muito se fala sobre o ideal distorcido de beleza, sobre os padrões estéticos de perfeição e das curvas cirurgicamente (e virtualmente) delineadas dos ícones contemporâneos.

Muitos são os estudos a respeito do impacto na (in)felicidade das mulheres com a sua aparência e da sociedade de consumo que se satisfaz a cada compra impulsionada pelo estado de espírito feminino. 

Muito se discute das campanhas publicitárias que apresentam mulheres magras, jovens e com uma beleza incomum na ânsia da venda de produtos. Peças publicitárias que, ao compor o universo de conhecimento das pessoas introjetam um padrão de beleza distante do "comum" e o determina enquanto ideal. Ideal este, não apenas de aparência, mas de sucesso de felicidade. 

Muito se discute na louca mudança da "beleza brasileira" que já fora da mulata das curvas sensuais e agora se divulga pelos quatro cantos do mundo na forma da super model Gisele Bündchen (cuja imagem é "usada" para vender de chinelo de dedo à financiamento de imóvies, passando por televisão a cabo... De fato, não há público alvo que passa ileso por sua "beleza brasileira"). Brasileira? 

Enfim...

Ainda que seja indiscutivelmente importante "muito discutir" estes temas, vale lembrar que, junto com o ideal de beleza é vendido um ideal de saúde. Mais importante ainda, um ideal de saúde vinculado ao um ideal de beleza que, francamente, de saúde, pouco tem. 

Associar os padrões estéticos elaborados através do Photoshop é uma afronta com a beleza do corpo real. Agora, associar estes padrões estéticos com a saúde... Neste caso, não é injusto apenas com a beleza do corpo, mas com a sua sobrevivência. 

E qual é o risco de se corre? As vezes é difícil lembrar que para algumas coisas não há como "erase" como se faz no Photoshop.


sexta-feira, 8 de março de 2013

Triste expectativa...

Não há nada mais frustante para um nutricionista do que não poder compartilhar a felicidade das conquistas com seu paciente...

Fato é que as pessoas estão constantemente infelizes com seus resultados. 
Em uma análise para além do ideal inatingível de beleza, o conceito de emagrecimento consolidado socialmente se faz mais forte do que qualquer orientação nutricional (por mais correta que esta seja). 

Quando, na capa da revista, uma mulher de beleza incomum, exibindo um corpo desejo-de-ser-corpo, é acompanhada por enfáticas sentenças de "seque", "enxugue", "elimine", é demasiadamente tentador não se contagiar. As promessas (que, por sua vez indicam silenciosas a possibilidade do sucesso) são, sobretudo, imediatistas. 

Ah, e o que seria da contemporaneidade sem o imediatismo? 

O bicho homem, no entanto, não funciona nesta velocidade. O corpo biológico não acompanha o corpo cultural que segue no compasso acelerado. Perder peso rapidamente não é próprio deste corpo: não aceita, e não o faz com destreza. 

Quando a paciente, linda, que trabalha, malha, gerencia os cuidados do lar, coordena a maternidade e mantém vivo o casamento, ao receber a notícia de que perdeu 2kg no primeiro mês dieta (tendo perdido 1,5kg de gordura e 2cm de circunferência da abdome), com um semblante triste e diz: "mas só isso?", a minha vontade é de agradecer muito, com todas as minhas forças, o desserviço à ciência da nutrição que a mídia da beleza insiste em prestar. 



http://corpoacorpo.uol.com.br/dieta/dieta-de-emergencia/dieta-para-emagrecer-6-kg-em-um-mes/3301


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Mártir da dieta!

A nutrição é uma ciência jovem. 
Ingênua, coitada, que não é capaz de se impor contra os grandes "nomes da moda". 

Dukan, grande francês que faz questão de propagar uma dieta absolutamente fora dos preceitos nutricionais de saúde e qualidade de vida, assumindo o slogn glamuroso de ter "conquistado mais de 30 milhões de leitores". 
Espero que tenham sido apenas leitores.

Esta dieta é uma releitura da "dieta das proteínas", elaborada ha alguns bons 10 anos...

As adaptações francesas reduzem o teor de gordura da dieta que se constrói em três etapas: 
A primeira, o mártir só pode consumir proteínas magras (peito de peru, queijo cottage, presunto magro, omelete de clara de ovos, por exemplo); 
A segunda, "menos restritiva", é possível introduzir os legumes e as verduras que devem, no entanto, ser consumidos apenas em dias alternados, ou seja, um dia "pode" e o outro volta a ser a dieta da primeira etapa;
A terceira etapa que é a mais "livre", em que alguns carboidratos como pão integral (1 fatia/dia) pode ser consumido, desde que seja mantido um dia da semana com a dieta restritiva da primeira etapa para "lembrar o corpo de funcionar daquela forma". 

Eu queria (muito) compreender o que faz um indivíduo, no controle de sua consciência, optar em seu livre arbítrio, em seguir uma dieta como esta. 

De fato, não há como não perder peso! Do modo com que é proposta, a dieta não permite o consumo de muitos dos alimentos que contribuem para o ganho de peso, e isso não é novidade. Comer menos calorias do que está acostumado, e alterar o balanço energético do corpo, de fato, faz qualquer indivíduo perder peso. 
A grande questão é: que peso é este que está sendo perdido?
Grande perda de peso em um curto período de tempo é, certamente, perda de massa magra. 
Perda de massa magra não é emagrecimento e sim envelhecimento (visto que quanto menor o conteúdo de massa magra, menor será a taxa de metabolismo basal e, portanto, menor o gasto energético diário...).

Mais interessante ainda, quando há a privação de energia para a célula, o que acontece a cada dia que se passa sem o consumo de carboidratos (ou seja, todos os dias em que a dieta volta a ser como na primeira etapa), aumenta-se o risco da resistência insulínica. Sim, aumenta-se, portanto, o risco de desenvolver diabetes mellitus (tipo 2) e de colher todos os malefícios da chamada síndrome metabólica (que inclusive reforça e reafirma a obesidade). 
Explico brevemente: quando há privação energética, os receptores celulares de glicose (capazes de notar a presença de energia) são todos exteriorizados, pois famintos, estão ávidos por energia. Quando o mártir voltar a ingerir uma dieta "normal", qualquer energia que aparecer será o suficiente para estimular os receptores. Uma dieta "normal" é então percebida como "muito", visto que qualquer presença de energia, por menor que seja, causará um grande impacto nestas células... Assim, o estímulo para o ganho de peso é muito maior. Daí segue os resultados que levam ao "efeito sanfona", acompanhados poe aquela pessoa que diz "engordei tudo de novo, e ainda mais!".
 Claro, judiou das células, agora aprecie os danos.  

Por fim, não posso terminar este texto sem antes ressaltar que é impressionante o jogo de cintura que se é preciso ter para que certos pacientes aceitem e incorporem os planos de dieta... Faz-se trocas, concessões, escolhas... Mas, quando é para seguir uma dieta absolutamente restritiva, sem fundamentação científica sólida, basta a promessa de "eliminar 5kg em 15 dias" que, rapidamente, se aceita consumir 5 minicenoura de colação e 2 ovos de codorna cozidos de ceia.
 

http://boaforma.abril.com.br/dieta/tipos-de-dieta-dietas-de-emergencia/menos-5-kg-15-dias-nova-dieta-dukan-730048.shtml

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

6 weeks to OMG: acabei com meu corpo!

Já faz um tempo tinha ouvido falar da "dieta milagrosa" de Venice Fulton.

A primeira vez que ouvi, estava no supermercado, aguardando na fila, e duas senhoras comentavam: "Mas perde mesmo, viu? Você sooooooofre, fica com fome, mas vale a pena, porque tem resultado.".

O resultado prometido pelo autor (que chama Poul Khanna e utiliza Vince como seu pseudônimo) é um emagrecimento acelerado de até 10kg em 40 dias. Ainda que sem explicações científicas plausíveis e assumindo valores (porcentagens, inclusive) da "boca pra fora", o livro virou best seller, e carrega no seu próprio título uma excelente jogada de marketing (quem não quer ser a mulher mais bonita? Mais bonita que todas as suas amigas...).

Em um julgamento ácido, bastante particular, creio que o autor faz uso de pseudônimo como um avatar, criando um espaço público que pode falar o que bem quiser e, com muito sofrimento, provocar perda de peso (não necessariamente o emagrecimento) de muitas mulheres.

Acredito, realmente, que seja possível perder peso mediante a dieta proposta. Se manter em um período de inanição durante 40 dias não é o suficiente para matar, mas força o corpo a fazer uso dos estoques energéticos e, portanto, diminuir em tamanho (e em peso, já que "corpo pesa"). O problema é o que depois...

Para começo de conversa, fazer atividade física em jejum (no caso, sem café da manhã), não força o corpo a queimar mais gordura, estimula a queima de músculo. Diferente do que o autor prega, o corpo não é estúpido, e tem medo de morrer, portanto: em uma situação de stress metabólico (como a atividade física) que promove gasto de energia, se não houver carboidratos disponíveis (fonte principal para o gasto) a primeira escolha será o músculo e não a gordura. Para usar gordura como fonte de energia é preciso uma série de ativações próprias que, via de regra, não acontecem no jejum.

Se você não tem grana para pagar a conta de energia, você apaga a luz ou a vela? Pois bem, o corpo também. Se não há energia suficiente para sobreviver, do que será que o corpo se desfaz: do músculo que gasta energia, ou da gordura que é um estoque econômico? Claro que será o músculo...

Mas é verdade. O autor está certo. Se o objetivo é perder peso, é isso mesmo que tem que fazer. Músculo pesa 4 vezes mais do que a gordura. Se o que se perde é músculo, a perda de peso é, realmente mais intensa.

O que deixa de ser mencionado é que músculo gasta 8 vezes mais energia do que a gordura. Assim, se o que está sendo eliminado do corpo é o músculo, o gasto deste corpo será sensivelmente menor. É uma boa maneira de adiantar o envelhecimento e pisotear no metabolismo (todo mundo já culpa ele mesmo, não?).

Ademais, outras dicas como permanecer longos períodos em jejum e consumir calorias a baixo das necessidades diárias também são condutas que forçam a diminuição de "corpo" (por diminuir massa magra), mas não de gordura.

Ao final da dieta, 10kg mais leve, e com gasto energético de uma vovozinha, a pessoa está pronta para recuperar seu peso de volta, e com um detalhe: se antes ela tinha um metabolismo que lhe gastasse 1000 calorias por dia, hoje, com esta redução, não gastará tudo isso e, portanto, se comer o mesmo que comia antes, engordará (ou seja, não só ganhará peso, como este peso será de gordura, aquela mesma que não gasta energia para se manter no corpo). A troca foi "excelente": músculo por gordura.

Claro que não tive tempo (nem tão pouco paciência) para explicar isso às senhoras do supermercado. Acho que, novamente em um comentário bastante ácido,  algumas pessoas tem mesmo que sofrer muuuuuuuuuuuito fazendo dieta louca. É que, honestamente, é muito pior seguir um acompanhamento nutricional de qualidade, com um profissional que sabe do que fala, do que assumir a inanição por conta de um livro.

Vai que o profissional é bom mesmo, acerta na mão e te deixa sofrer menos... Qual a graça?

http://vogue.globo.com/beleza/6-weeks-to-omg-a-polemica-dieta-que-promete-eliminar-10kg-em-40-dias/


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Fenômeno da Medida Certa.


Antes mesmo de domingo o desencanto já era previsto.

Após o "sucesso" do Medida Certa com os seus apresentadores sobrepeso, e o "sucesso" mais opaco do "medidinha certa" com crianças, a bola da vez é o Ronaldo Fenômeno. 

Antes de tudo, me desculpe, mas eu não acredito que um indivíduo de tantas posses e de tantas acessorias não tenha se dado ao trabalho de cuidar de uma desarmonia da tireoide. Não acho viável. 

De todo o modo, me sinto na responsabilidade de demonstrar meu descontentamento quanto ao mau uso do  nutricionista. Triste, muito triste. 

Educador físico, independentemente de sua especialização em nutrição em ortomolecular, em bioquímica ou em qualquer que seja a área de interesse, não pode - e isso é LEI - prescrever dieta. 

A dieta, segundo a lei que regulamenta as atribuições específicas do nutricionista assegura isso como responsabilidade do profissional que estudou isso durante os seus quatro anos de formação.

Mais ainda, fico um tanto desiludida quando vejo nutricionistas que se prestaram em participar do programa SABENDO e ASSUMINDO que as maiores orientações (as orientações "de base") serão de um educador físico. Pena...

Que fique claro, não menosprezo a educador físico, muito pelo contrário, acredito que suas orientações sejam de suma importância em um processo de reorganização de vida e emagrecimento mas, do mesmo modo que não cabe a mim prescrever atividades físicas, não cabe a eles prescrever dieta. 

... Ok. 

Vamos perceber o "Medida certa do Fenômeno" por outro lado - que talvez acalme os ânimos (ou os incendeie de vez!).

A Industria Cultural pressupõe uma "linha de montagem" de produtos culturais. Do mesmo modo que se faz para construir um carro, se faz para elaborar bens culturais, como filmes, novelas e, certamente, programas de televisão. 

A necessidade de "manter a forma", cultivar o corpo e, no limite do entendimento e do desejo ser saudável, são grandes anseios humanos (ou assim são cultivados). A fórmula do Medida Certa foi certeira: grande audiência e boa responsividade do público, de tal modo que vale ser "refeita". 

Novas roupagens deram a oportunidade de manter o investimento em uma fórmula que sabidamente seria bem aceita... 

Tudo bem. 

Será que está em contrato que ele deve manter a perda de peso após o término dos 3 meses? 
Para os apresentadores... bom, acho que nem preciso dizer que não aconteceu, não é mesmo?