quinta-feira, 30 de julho de 2015

Metas? Quero mesmo é felicidade!

Sabe quantas as vezes eu escuto: "... Então, qual é a nossa meta?"? 

Muitas. Já até perdi a conta. 

Sabe o que eu respondo? "Ser feliz!". :)

Nem todos entendem minha brincadeira e, muito embora eu note um sorrisinho de canto de boca, eu sei que a aflição pelo resultado é grande. As vezes muito grande. Tão grande que se torna angústia. 

Veja bem, pensamos quase que o tempo todo em objetivos, nos enchemos de motivos e de necessidades. Nos organizamos em tabelas, nos delimitamos nos afazeres, nos gastos, nos "precisos". Fomos (e somos diariamente), educados a seguir assim - é bom se organizar, prever e saber qual é o nosso chão. Não é mesmo? 

No entanto, quando o assunto é metabolismo, resposta bioquímica e fisiológica do organismo, bom... Aí, determinar metas é pura fantasia. 

Corpo é bicho.
Tem seu tempo, seus mecanismos de ajuste, seus caprichos. 
Tem sua estrutura física, seus contornos genéticos e carrega nele a nossa história.
Caros, ele não pode ser tratado como uma meta. 

A não ser que aceitem que a meta têm prazos e características maleáveis e, sobretudo, que possa nos surpreender. Porque quando se trata de corpo é assim... Temos conduta, palpites, e controles, mas na pratica, temos a vida.

Não me entendam mal, a meta pode mesmo ser motivadora. Não nego. Mas, no mecanicismo e na rigidez que se propõe, ela perde sua força. Porque no lado de lá da ciência, sabemos que não é só determinação e foco que constroem o resultado - são tantos outros aspectos, que não é justo para quem não "atinge a meta" ser taxado de desleixado e desfocado. Tem mais, muito mais.

A meu ver, a meta deveria ser substituída pela jornada. O caminho é quem de fato nos constrói. 

Então... Que a jornada por este caminho seja prazeirosa e feliz e que transborde a contenção das metas! 





quarta-feira, 15 de julho de 2015

Aonde vamos parar?

Nesses últimos dias uma moça de 37 anos de idade morreu na UTI de um hospital por conta de complicações vindas da perda de peso. Não uma perda de peso qualquer: uma perda de 45kg em menos de um semestre. 
Esse emagrecimento, à base de "sucos para desentoxicar" (palavras estas do relato de uma colega), em uma dieta que contemplasse 400kcal (segundo o jornal Extra, O Globo, que narrou a história), claro, não a deixou saudável. Teve pneumonia e infecções tão importantes que, ainda segundo a fonte, a deixaram muito enfraquecida e em uma rotina de idas e vindas constantes do hospital. 

Pois então... 
Meus mais sinceros sentimentos à família e aos amigos desta moça. E a ela, que tenha paz, toda aquela paz que, claramente, não conseguiu ter por aqui. 

Apesar de todo o respeito que tenho ao lamentável acontecimento - e talvez justamente por este respeito, e pelo comprometimento que insisto em ter frente à indústria-da-dieta e ao desejo-de-ser-corpo - não posso deixar de comentar três fatos sobre esse assunto que me chamaram muito a atenção.  Muito. Muito mesmo.

Primeiro, a motivação. Muito embora se faça referência à busca da qualidade de vida através do emagrecimento, o gatilho que fez essa mulher - positiva, "iluminada", vaidosa e sempre disposta a ajudar os outros, segundo o relato dos seus conhecidos - tomar tal atitude, teve sua origem na  ofensa de um terceiro (um homem). Um outro alguém que comentou sobre o seu insucesso decorrente das suas dimensões corporais. Um homem que, no cômodo direito social de julgador, lhe agrediu com palavras... E, sabe como é, mulher foi feita para enfeitar o mundo, e ai de você se não estiver nas proporções certas. Enquanto mulher for tratada como é, e sua representação foi objetificada e reduzida, me parece que seguiremos nessa linha. Essa condição, vitimiza em dose dupla: o desejo de querer ser aceita, e a própria insatisfação que leva a medidas drásticas. Essa moça não era "louca" por fazer dieta de tamanha restrição, ela seguia um padrão social - quantas não fazem e, porque não morrem, não sabemos? 

Segundo, o método. É premissa quase que cultural que "fechar a boca" emagrece. Quantas vezes não ouvimos isso? Quantas vezes não lemos em capas de revista os milagres da nova privação? Quantas vezes não vemos celebridades se gabando das suas privações? Quantas vezes não achamos que a privação "é normal"? E ai, na busca da qualidade de vida, a moça  encontra um método que, de tão pouca qualidade, lhe tira a vida. Ela não foi "infeliz" na escolha... Ela foi desesperada, e impulsionada por uma pressão que exercemos (sim, nós todos) diariamente. É a revista, é o programa de celebridade, é a nutricionista, a mãe, o médico, o educador físico, o exemplo nos comerciais, o papo na academia, no salão de beleza, no supermercado... São os olhares julgados, e claro, as agressões verbais dos comentários alheios. 

Terceiro, o descaso com o desfecho. Sou só eu que fico absolutamente preocupada com uma morte alcançada por uma desnutrição compulsória? Será que não é visível que a cultura do corpo e  a valorização das formas diminuídas  está nos atrapalhando? O que será que precisa acontecer para isso ser "assunto sério"? Mas, novamente... A moça não foi "inconsequente" em seguir dieta por conta própria, ela foi vítima da cultura skinny-freak, de um tempo em que se entende feminismo como sinônimo de liberação sexual (e não é!) e de uma indústria da dieta repleta de maus exemplos. 

Lamentável.  



http://m.extra.globo.com/noticias/brasil/mulher-morre-apos-se-submeter-dieta-radical-perder-45-quilos-em-menos-de-seis-meses-16753502.html

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Colegas, olhem nossas crianças!

Queria pedir licença e endereçar o texto de hoje aos meus caros colegas nutricionistas.

Escrevo àqueles que, assim como eu, acreditam na ciência e, sobre tudo, a respeitam.
Àqueles que compreendem que comer deveria ser, antes de tudo, uma atividade cheia de prazeres, capaz de nutrir o corpo e as memórias.
Àqueles que percebem o paciente enquanto indivíduo especial e único, que carrega consigo um metabolismo, uma história e um contexto. Que os olha nos olhos, lhe explica, e o ouve com atenção. 

É pra estes colegas que escrevo.  

Queridos, vocês já notaram a quantidade de crianças preocupadas com o peso?
Com a "gordura localizada"? Com suas formas físicas?
A quantidade de jovenzinhos que se propõe a fazer dieta?

Pois então... Eu também notei! 
E confesso: fiquei com medo. 

Medo dos objetivos e dos discursos. Do grau de importância que se dá ao corpo e da redução da felicidade à aparência física.
Medo do conceito de que se tem de "certo" e "errado", de "emagrecer" e "engordar", da "beleza" e da "feiura" (na eterna dicotomia do "bom" e do "ruim"). 
Medo do modo com que as gostosuras da infância sucumbem à rigidez das regras. Mais ainda, da imposição social destas regras e, de como "aceitamos" que elas nos sejam impostas.
Medo dos valores.

Estamos diante de um legião de pessoinhas que, em idade de pular amarelinha, brincar de esconde-esconde e comer pipoca, estão se preocupando com seus contornos físicos. Um grupo de pequenas mocinhas que entram no consultório por vontade própria, na busca de um aconselhamento nutricional... Um aconselhamento que, claro, promova "perda de peso", redução, "enxugamento". Jovenzinhas que, quando indagadas quanto ao motivo da vinda ao consultório da nutricionista respondem sem pestanejar: "para ficar mais magra e mais bonita". Como se sinônimos fossem.

Como faremos então?
Que sinuca de bico perigosa essa, não é?

A nossa loucura social que demanda a magreza-da-beleza-feminina e o non-sense-da-barriga-chapada, chegou naqueles que serão o futuro. Chegou nos pequenos. E, pelo que me parece, chegou bem cedo...

Em um estudo muito bem conduzido pela Universidade Berkely (nos Estados Unidos, realizado e publicado em 2013), mais da metade das garotas da terceira à quinta série se diziam insatisfeitas com seus corpos - alegando que o motivo maior era o "excesso" de peso, muito embora apenas um quarto realmente atingisse essa classificação antropométrica.

Na evolução deste estudo, em nova publicação em 2014, foi notado que o desejo principal de meninas de 11 a 17 anos era a perda de peso. Repito: de 11 à 17 anos. Nosso marco inicial aqui é de 11 anos (on-ze-anos). Nesta pesquisa, o discursos das mocinhas referenciou claramente a "necessidade de ser ultra-magra para se ter sucesso" e considerar uma prioridade "assemelhar-se a uma top-model" para ser aceita.

Outro estudo, em final de 2014, que se propôs a avaliar influência midiática no comportamento e na auto-imagem das crianças, apresentou resultados escandalosos: pouco mais de um terço das crianças de 6 a 8 anos de idade acham que o "corpo ideal" é mais magro que o seu, e um quarto das crianças de 7 a 8 anos já tentou fazer alguma restrição alimentar (lá denominada e referida pelos próprios jovenzinhos como "dieta").  

Caros colegas, notem que estes são apenas três bons (sérios e relevantes) estudos dentre tantos outros que temos. As mais diversas áreas do conhecimento se preocupam em abordar o tema e, no meu ponto de vista, estamos bem no centro desta questão. Não podemos ficar calados diante dos resultados catastróficos que não cansam de aparecer e da responsabilidade que, de certa forma, a nossa profissão nos trás.

Ao escolhermos a nutrição estávamos, na verdade, escolhendo uma ciência espetacular, que unifica um conhecimento bastante técnico, com a prática diária, considerando os prazeres da alimentação e a relação afetiva e emocional que travamos com a comida e com o ato do consumo. Estávamos escolhendo aturar com a diversidade e a individualidade orgânica, em busca da qualidade de vida e da saúde. Para os que sabiam que trilhariam a área clínica, estávamos decididos a atuar em conjunto com nossos pacientes, na mais verdadeira harmonia (alimentar e de relacionamento, de respeito). Não foi? Não eram estes os nossos preceitos? A nossa motivação?

Pois então... E agora?
Claro, meus caros, que nosso controle frente a isso tudo é pequeno. Que não somos nós que determinamos os caprichos estéticos, e que não somos nós que pegamos "ninguém pelo braço" para lhes introduzir uma dieta goela a baixo. Mas, até que ponto será que nós não fazemos parte desta indústria? Até que ponto nossas orientações não corroboram para este cenário? Principalmente quando não estamos preparados para considerar os nossos pacientes inseridos nesse universo de desejos e privações? Quando aceitamos em retirar a cor e o sabor da vida dos outros em prol do tão falado "foco"? E quando estes são jovenzinhos? Mocinhas e mocinhos?

Nossa responsabilidade é com a saúde. E saúde é muito mais do que silhueta e contornos. Saúde é muitos mais do que "certo" e "errado". É, sem a menor dúvida, muito mais do que escolhas saudáveis.
A meu ver, a saúde começa na vida fora do calabouço do corpo ideal e do comportamento que ele demanda. Saúde está na liberdade da criança em ser como é. Está bem longe de regras que lhe prometa "sucesso pela beleza".

Que possamos refletir.
Que essa reflexão nos dê coerência.
Que nossa prática diária seja mais compreensiva.
Que tenhamos capacidade de trazer um pensamento e uma abordagem mais humana.
Que nossas crianças comam sem culpa, e que desejem um passeio no parque e um balão colorido, não um corpo novo.

Com carinho,
Bia.





Dos estudos citados:
(1) Umberable Weight, Susan Bordo et col, Berkeley: University of California Press. oct. 2013.
(2) Umberable Weight Keeps the Same, Susan Bordo et col, Berkeley: University of California Press. apr. 2014.
(3) https://www.commonsensemedia.org/



sexta-feira, 29 de maio de 2015

A polêmica lancheirinha...

O que dizer da lancheirinha da Flor, filha da Bela Gil? 

Hum... Primeiro, que mania é essa, a nossa, de darmos pitacos intrometidos onde não fomos chamados? 
Por outro lado... Minha avó dizia que "quem fala o que quer, escuta o que não quer", e isso não podia ser mais verdade em tempos de mídias sociais! (Vamos fazer valer essa premissa!) O que não deveríamos perder, é claro, é a educação.

Como profissional "da área", me sinto na liberdade de dizer: sorte a da garotinha! Não me entendam mal... Estou longe de ser nutricionista natureba (nada de errado em ser... tudo é uma questão de perfil), mas é preciso considerar que poucas são as crianças que podem desfrutar desse cuidado e dessa atenção na montagem da lancheira. 

Comida, meus caros, é carinho! 

Esse carinho, e não podia ser diferente, será reproduzido de acordo com os valores pessoais, culturais e familiares, de quem o prepara e de quem acredita que, através dele, é possível educar. Não é que aprendemos mesmo pelo exemplo? 

Para além do conteúdo da lancheirinha, acho que o que falta mesmo é a compreensão. Me parece bastante coerente da parte da moça oferecer a sua filha aquilo que julga pertinente: e se nessa foto tivesse um bolo de pacotinho, um salgadinho e um suco de caixinha? O que os afiados internautas falariam? O que escreveríamos a respeito? Ué... Ela não foi coerente? 

Espero muito, e aí a consideraria ainda mais sortuda, se esse regime não lhe for imposição... Se, em uma festa de criança, ela puder compartilhar dos sabores com seus amiguinhos, se puder tomar um sorvete em uma tarde descontraída, ou se para a mãe dela, for tranquilo ela querer experimentar alguma destas "tranqueiras industrializadas". (Notem, por favor, o termo experimentar, parente das expressões "hora ou outra", "às vezes" e "de vez em quando".)

A vida se experimenta, também, pela boca! 

Educação, coerência e consciência alimentar é bom... E a liberdade também! 

Quanto aos comentários que vieram da sua postagem, bom... Lamento a falta de educação de uns e os insultos de outros, julgo pertinente as considerações de uns e ri com a de outros! Humor (daqueles ingênuos e simples) nunca faz mal!

Quanto ao pedido da advogada da moça, para que "deixem ela em paz", bom... Alto lá parceira, exposição gera comentários. Simples assim. Liberdade de falar = liberdade de escutar. 

Quanto a "resposta" da moça, dizendo que a lancheirinha da filha é ecológica (pois não produziu lixo), nutritiva, dentro dos gostos da filha e que previne a obesidade, bom... Meus mais sinceros parabéns por usar bem seu tempo para conseguir oferecer essas escolhas (esse carinho e essa educação - alimentar e não alimentar) à sua filha! Mas, deixe-me aqui fazer uma pequena ressalva (sem acusações, tá?): a obesidade é uma condição de causa multifatorial, e a boa alimentação ajuda na sua prevenção mas não a resume, enquanto nutricionista, devemos saber disso e não sinalizar que quem é obeso come mal. Podemos nos surpreender... E o que menos precisamos é endossar o "preconceito" nesse sentido.

Ahh.... Mais amor, né? Com regras menos duras, julgamentos menos espinhosos, e mais felicidade! 







sábado, 16 de maio de 2015

Sabe a dieta da presidente?

Sabe aquele dieta que a presidente faz?
Aquela que não é a do médico americano, nem a do médico francês, mas que, claro, também corta carboidratos... Sabe qual é ?



Pois então, que resultado não é mesmo? Uma notável perda de peso que virou até notícia em alguns veículos. Digna, inclusive de comparação de fotos antes e depois. 
Apesar de acreditar que a atual situação política do país mereça um pouco mais do que considerações a cerca da composição corporal da presidente, aproveito aqui a pauta para pedir licença, e mostrar um pouquinho o lado de cá da ciência desta perda de peso. Será que posso?

Obrigada. :)

Antes de tudo, a redução de carboidrato é uma velha estratégia dietética. Através dela é possível modular a insulina (hormônio responsável por organizar o emprego da energia) e, com isso os estoques do corpo conseguem ser mobilizados. Mais inteligente ainda se, para esta modulação, for considerado o impacto sanguíneo (e metabólico) causado pelo consumo (que chamamos de carga glicêmica e muito interfere em uma boa dieta). O cenário fica diferente, no entanto, quando de "regulação", passamos à "privação" e então, neste ponto... Bom, aí a "conduta" vira uma verdadeira armadilha!

Primeiro, que o corpo é bicho e tem medo de morrer.
Fomos feitos para preservar a vida e, sem a sinalização coerente do consumo, a informação que passamos é de que teremos que nos contentar com "menos". Assim, uma série de peptídeos e hormônios reguladores são lançados com a proposta de colocar o corpo para trabalhar low cost, gastando menos energia para executar suas funções e estimulando o estoque energético (quando possível). Gastamos menos energia para se mante vivo - ou seja, em resumo, diminui o metabolismo.
Na tentativa de preservar a vida... Economizamos. É assim na nossa prática diária e não é diferente na fisiologia.
Desculpe mas, ao menos ao meu entender, não me parece muito favorável estimular a redução do gasto quando o que se quer é gastar mais. Não é mesmo? Eis então um contra senso metabólico: quero perder, mas para isso, eu sinalizo para o meu corpo que ele tem que estocar - uma equação fadada ao erro.

Segundo que, novamente, o corpo é bicho e tem medo de morrer.
No cenário da privação, de todas as informações recebidas pelo corpo, uma das que mais prevalece é o stress. Stress de falta, de redução, de escassez.
O stress proporciona que os estoques sejam colocados em uso, mas isso não dá faz à revelia: o corpo não sai gastando "qualquer coisa", ele tem a nobre intensão de se manter vivo por maior tempo possível, e isso o faz economizar.
Na escolha do substrato energético a ser mobilizado, certamente ele irá escolher aquele que lhe fará menos falta, o que o possibilitará driblar o momento de crise. O resultado disso? Um esforço mais-do-que-natural para preservar o estoque mais barato, a gordura.
Pois é... Na cadeia de uso de energia, a gordura é um bem precioso! E então, em momentos de stress orgânico, ela é preservada no limite do possível, em detrimento aos demais substratos.
Isso, em poucas palavras, resulta em perda-de-peso-na-balança e manutenção-de-gordura (principalmente aquelas localizadas). A composição corporal perde contornos e mantém, como vimos a pouco, seu metabolismo baixo. Se cansar dessa privação (dessa dieta)? Os estoques de gordura localizados seguirão como os principais pontos de armazenamento do corpo, este que terá ainda mais dificuldade em gastar energia (... ué, como acabamos de ver, não é que o seu gasto foi forçado a se reduzir?).

Terceiro que, de novo, o corpo é bicho e tem medo de morrer!
Na evolução, a maleabilidade adaptativa do corpo foi indispensável. Sem ela não conseguiríamos ter driblado a intempérie e a escassez de alimentos... Não sobreviveríamos para contar a história. Hoje, no entanto, essa característica é a grande responsável pelo platô de perda de peso, o "estancamento" da perda. Esse platô é a própria materialização da adaptação.
O corpo aprende e se adapta ao que recebe: se antes recebia 1000kcal ele vivia bem com elas... Se passou a receber 800kcal, ele perde peso, reduz seu gasto, se adapta, e passa a viver bem com elas também. A dificuldade em progredir aparece quando a partir da redução não se consegue mais "comer normal", ou seja, quando o consumo precisa ser cada vez menor para conseguir resultados de perda de peso.  Vai se criando um calabouço dietético de privação e redução.
Uma pena, comer é tão gostoso...
Será que é mesmo uma boa mostrar pro corpo que queremos "funcionar com menos"? Será que isso não dificulta a perda de peso subsequente? Se o corpo estará acostumado a menos, como vai ser quando se cansar da dieta de privação e aparecer para ele o "normal"?
Eis que vem o rebote, e a eterna dificuldade em controlar o peso e a composição do corpo. Eis que se assume uma vida cheia de restrições. De nãos.

Para além da redução metabólica, da preservação da gordura corporal e da dificuldade de manutenção dos resultados, o pior de tudo, o fundo do poço, o mais desesperador é a falta de felicidade que dietas como essa pregam. Nos ensinam que para ter resultados é necessário ter foco, determinação e disposição ao não-gostar-do-comer. Fatores estes que juntos e acrescidos da privação de consumo, acabam mesmo por nos privar dos bons momentos da vida.

Acho que está mais do que na hora de usar os conhecimentos da ciência a nosso favor... E não contra. De usá-los à favor de uma vida gostosa, com escolhas, que não dependa dos cortes e dos não. Que nos dê cores e nos possibilite sabores. Tomara que o foco e a determinação sejam ajustados para isso.




http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/dilma-perdeu-15-quilos-com-dieta-veja-antes-e-depois



sexta-feira, 27 de março de 2015

Barriga-grávida-definida: uma breve consideração.

Desde que vi a primeira foto – a Sarah Stage de barriga-grávida-definida, de calcinha, em uma selfie no espelho – fiquei inquieta, naquela angústia que normalmente me motiva a escrever. Iniciei o texto muitas vezes. Mas nunca cheguei ao fim. Busquei mais fotos, vi “notícias” a seu respeito, li e re-li os comentários e, apesar de permanecer inquieta, não sabia exatamente aonde meus pensamentos ancoravam.

Eis que passou um tempinho, e me deparei com a foto da Bella Falconi grávida – de perfil, exibindo, também de calcinha, uma barriga -grávida-definida em mais um selfie de espelho. Na mesma angústia, busquei mais informações, vi mais fotos, li os comentários e tudo-o-mais. Neste exercício de busca notei que a verdadeira angústia – diferente do que retratado nos comentários – estava justamente neles, no impacto que as tais fotos haviam causado.

Dentre os comentários, consegui notar três espectros diferentes: (1) aqueles que criticavam, afinal “naquela barriguinha o neném deveria estar espremido”; (2) aqueles que criticavam quem criticava, sob o argumento de que “se ela está saudável ok”, e “quem critica é recalcado”, e; (3) os elogiadores comedidos, que aplaudiam a exposição feminina.

Isto posto, notei que a problemática real não está na conduta, mas na exposição.
Não está na escolha pessoal, mas no exemplo.
Não está na mulher (em si), mas no que se espera dela.
Não está na fotografia, mas no contexto.
Não está na crítica nem no “recalque”, está no narcisismo e na qualidade de capital que o corpo tem.


Na bem da verdade, o que deveria importar mesmo é a saúde (da mãe, da criança, da sociedade) e a felicidade (da mãe, da criança, da sociedade), mas preferimos nos aprisionar em um moralismo de exposição – que é tão de fachada quanto uma selfie de calcinha no espelho. 


terça-feira, 24 de março de 2015

Bem Estar, campanha #afinarocha e o desserviço social.

Nesta segunda-feira, 23/3, o tema "principal" do conhecido programa abordou a perda de peso de um de seus apresentadores. 
Dentre os comentários e as "matérias" a seu respeito, eis que surge a figura da profissional que o acompanhou (uma colega de área, uma nutricionista) e, claro, traços da conduta nele aplicada.

Pois então... 
Novamente o emagrecimento, novamente a perda de peso, novamente as calorias... Não que seja um assunto velado - utopia que estamos bastante distante - mas será mesmo que é preciso que ele esteja tão em pauta? Que sejam tópicos tão frequentes? Será que isso ajuda mesmo a população a se conscientizar? Será que não promove, do modo com que é apresentado, ainda mais malefícios do que benefícios? 

Estão aí perguntas que (além de terem motivado minha dissertação de mestrado em 2013), creio que pouco teremos consenso nas suas respostas.

Mas... Isso não nos impede de questionar sempre que temos a chance. Não é mesmo? O conteúdo virou (nacionalmente) público, então podemos fazê-lo sem pedir licença.

A seguir então, algumas considerações: (vale lembrar que considerações não são acusações, tão pouco julgamentos.) :)

1-) Nosso corpo não é máquina. É afinado, alinhado e nos responde bem frente a estímulos, mas não é máquina... O pensamento biológico não é mecanicista. 
Me parece esquisito (para não dizer um pouco ultrapassado) uma orientação dietética ser baseada em calorias. Índice (na verdade carga) glicêmico(a), tudo bem, é lindo... Mas é mesmo que de 4000 passou-se a 800kcal/dia? É mesmo? Mesmo? Isso não vai bagunçar ainda mais esse metabolismo? Será que ele não ficará mais baixo, mais preguiçoso? Será que essa dieta não terá um platô próximo? Daqueles bem difíceis de sair? ... Mais ainda, será que é prudente expor, em rede nacional, que uma nutricionista assume uma dieta de "poucas calorias" para um homenzão daquele? Será que foi considerado que o programa passaria em televisões de pessoas bem esclarecidas, e outras nem tanto? Será que foi considerado que quase todas as pessoas são capazes de contar calorias? Será que lembraram que nutrição é uma ciência séria que não é "só" contar calorias, mas que ao "ensinar" a conduta, acaba dando o aval para ser reproduzida? Será que não consideraram o impacto em grande escala que isso poderia causar? Hum...

2-) A classe de profissionais da nutrição é complicada. Não apenas os nutricionistas, mas os nutrologos e os endocrinologistas e todo o aparato técnico que se "prepara" para trabalhar na aérea. Não à toa temos tantos problemas com dissonância de condutas (muito embora eu, particularmente, as perceba de modo positivo - tem nutricionista para tudo que é gosto!). No programa, no entanto, qual foi a atuação/atitude da colega? Mandona, né? Será que isso depõe à favor? Será que é este mesmo o modelo (que respeita o estereótipo) que queremos ter? Será que bem nos representa? No limite, será que é possível representar uma classe tão plural? Pensando novamente em grande escala, será que foi uma boa propaganda para nutricionistas de todo país? (Será que somos assim na maioria?). Não pareceu que somos fiscais-do-comer? Eu hein...?

3-) No modo com que foi apresentado - o prato-de-comida-que-só-tinha-salada e a dificuldade-da-privação-dos-eventos-sociais - a dieta pareceu dura. Daquelas que prega mesmo o modelo mecanicista de cálculo de comida e desconsidera a vida do paciente/cliente. Será que, para emagrecer, é preciso tirar da vida tudo o que se gosta? Será que temos resultados bons (fiéis, duradouros, reais...) assim? Será que o cidadão que segue, no intuito de perda de peso, aceita ser infeliz? Se privar de tal modo? Mais ainda, e voltando ao profissional, será que é isso que queremos "vender"? De novo, será que foi essa uma boa publicidade? Será que isso encoraja pessoas a buscarem novos hábitos de vida? Ou será que "o saudável" pareceu ainda mais distante "do real"? Será que (nós) temos o direito de mexer de tal modo na vida do outro? Será que merecemos ser taxadas deste modo?  Não sei não... Não gostei dessa ideia não...

4-) #afinarocha - "campanha" em prol do emagrecimento do apresentador: 21kg em 2 meses. É isso mesmo? É sério? Campanha para o emagrecimento acelerado...? Que expectativas isso gera? Qual o benefício real nisso tudo? Uma campanha? Com hashtag e tudo? Esta bem.

É uma pena. 
Eu lamento muito.

O que me entristece, além da contra-propaganda e da promoção errada do conceito da profissão é, principalmente o mau uso da informação pública. Com a abrangência que se tem, vestidos de "doutores" (com a chancela de "qualidade" da emissora) propagam valores que se vendem em troca de audiência... Isso tudo em uma sociedade já cheia de problemas ligados à alimentação: quer sejam pelo seu excesso, quer sejam pelas restrições. 




http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2015/03/fernando-rocha-encara-dieta-para-emagrecer-ate-21-kg-em-dois-meses.html