sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A beleza... Sempre ela.

Parece que deu um clic. 

Meio-que-de-repente, algumas considerações "diferentes" começaram a aparecer.

Lá atrás (em 2004 - já se foram 10 anos!) a Dove (Unilever), através de uma pesquisa mundial, chegou à conclusão de que as mulheres estavam tristes com seus corpos, com a representação deles e, mais ainda, com a obrigatoriedade em atender à dadas dimensões, cores e texturas.

Pois bem. Sabido isso, campanhas e peças publicitárias foram estruturadas em favor da "real beleza".  Lindas e emocionantes, tocaram (e ainda tocam) as mulheres no coração (aqui, no sentido da emoção, e da profundidade que alcançam). 

Vídeo, depoimentos, fotos, relatos... Acredito que, minimamente, novas reflexões se fizeram e a angústia de uma irrealidade corporal - daquelas que nos mantém presas pela auto censura - começou a deixar-se à mostra.

Ao meu ver, um grande avanço. 

De toda a euforia do movimento, daquilo tudo que partiu do "clic" inicial, dois pontos me incomodam profundamente: o primeiro, diz respeito àqueles que acham que isso tudo é bobagem, que temos o que temos, que somos o que somos, e "bora" explorar a mulher (sua beleza e seu corpo) nos mais variados contextos, sexualizando-os, na maioria das vezes, e; o segundo, que me parece bem escondido, quase paradoxal, surge como indagação: por que é mesmo, que temos que ser belas? 

Pois sim, por que é que temos que ter "a real beleza"? Por que temos que nos sentir belas - mesmo que a beleza que tenhamos não seja do padrão? Por que "a beleza" é sempre (SEMPRE), o objetivo? 

Cabe dizer aqui creio fortemente na importância do bem-sentir-se. Isso é indiscutível. Só não consigo compreender, o motivo da sua estreita relação com o bonita-sentir-se... Alguém cobra isso do homem? Por que aceitamos tanto essa questão de gênero? 

Lutamos contra tantas desigualdades, mas esta, por sua vez, parecemos aceitar.

Talvez, ao invés de todos os esforços serem aplicados na busca pela "real beleza", pudéssemos mudar o foco e partir no sentido da "real felicidade". Não é não? 


sábado, 8 de novembro de 2014

Citações que cortam o coração...

Queria muito que não fossem frases verdadeiras. 
Mas são. 
E como são. 

"Ah, quero a água: vamos economizar na celulite, né?"
        - menininha, 7 anos, em festa de aniversário, recusando refrigerante. 

"Não quero essa barriga!"
         - menininha, 6 anos, apertando com raiva sua barriga.

"Mas a minha amiga pesa menos! Eu também quero pesar igual a ela! Quero pesar menos! Muito menos!"
         - menininha, 8 anos, chorando ao se pesar na farmácia.

"Eu já comi uma fatia de bolo, mas eu queria taaaaaanto mais uma!"
           - menininha, 6 anos, com olhos mareados, explicando à mamãe que quer mais um pedaço do bolo do aniversário da avó.

"Porque eu tenho vontade... Ai eu como... Ai eu tenho raiva de mim."
            - menininha, 8 anos, descrevendo sua aflição. 

Não há prisão mais solitária do que nossa própria consciência. Não há ditadura mais severa do que aquela que não se percebe. Não há angústia maior do que lutar contra aquilo que se "aprende" desde sempre.

Quem será que nos "ensina" isso?


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Carta aberta às queridas!

Querida, 

Não se cobre não.
Nós não somos como "elas".
Nossos afazeres diários não se resumem na proficionalização do "ser bela". 
Não saímos de casa apenas após os retoques do Photoshop e, já que ficou popular: somos, na verdade, sem filtro e sem make. 

Não se cobre não. 
Se não deu para ir na academia hoje. Tudo bem! 
Se não deu para fazer a dieta perfeitinha. Tudo bem, também! 
As vezes, tudo o que precisamos é um tempo, curta-o com carinho. 
Se não deu para ter um tempo? Não se preocupe, mas trate de arrumar tempo para seu tempo (nem que a aula de jump fique para amanhã)! 

Não se cobre não. 
A roupa, em um corpo de verdade, sempre vai cair diferente do que a do manequim. 
As vezes, será mesmo preciso apertar aqui, diminuir acolá, pegar um número maior, um menor...
Cada corpo tem sua forma, sua magia e sua graça: felizmente não somos um padrão único! 

Não se cobre não.
A mocinha também vai envelhecer. 
A senhora também já foi mocinha. 
A vida não é sempre igual, e cada momento tem seu contexto: vale mais a pena aproveitar o de hoje, do que viver lembrando do que se teve, ou viver na expectativa do próximo verão. 
O pedaço de bolo de aniversário que você não aproveita hoje pode te ajudar no seu #foco, mas pode te fazer falta nas suas memórias da vida... E, certamente, da de quem o ofereceu.
Não se cobre não, a vida brinda à intempérie!

Querida, se você quiser ir malhar, comer "direito", usar suplemento, faça tudo com prazer (e com responsabilidade)! Aproveite seus treinos, cultive seus esforços, faça suas escolhas e colha seus resultados com alegria. Lembre-se que todo excesso não é bem vindo...

Lindona, se você não quiser treinar hoje, nem amanhã, nem depois... Tudo bem! Você não será menos por isso. Lembre-se que o corpo gosta do movimento, e que um passeio no parque pode ser bem prazeroso - nem que seja de final de semana, porque eu sei, parece que o tempo some! 

Não se cobre não. 
Não é preciso estar como os outros querem (ou como você quer que os outros te vejam) para ser feliz. Diferente do que as revistas femininas, os blogs fitness e todo-o-resto-do-universo nos falam, nossa felicidade não se resume a isso e não temos o dever de ser "belas" (seja lá o que a "beleza" significa e as características que demande). 

Não se cobre não!
Se me permitir a dica:
Durma, trabalhe, passeie, coma, cuide de você e dos seus, sorria, movimente-se... Faça a vida como você gostar, como preferir! 
Tenha cor nos seus dias e nos seus pratos. Palpe sua mama. Defenda suas ideias. Respeite você mesma, o próximo (e a próxima). Curta a seu modo, sem culpa das suas escolhas (a "liberdade" é justamente isso). 

Por fim... De verdade, não se cobre não! 


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Ela é gorda, e agora?

A representação do corpo feminino muito me intriga. Na capa da revista, na novela das oito, na propaganda (de maquiagem, de roupa, de carro, de cerveja...) e, sobretudo, na angústia relatada da imagem que se tem quando em frente ao espelho. Torno-me particularmente curiosa quando a discussão sobre o tema atinge a questão do gênero, não apenas enquanto representação (da mulher), mas como o outro (o homem) a observa. 

Creio que o olhar masculino em relação às representações da mulher muito diz dos dos valores da sociedade e da cultura em que se está inserido - talvez não por se tratar de homem e mulher (já que gostamos tanto desta distinção) mas por representar, de fato, o "olhar do outro". 

Pois então, é com este pensamento e neste contexto que precisei escrever sobre um vídeo simples, destes que encontramos por acaso na internet, mas que mexem com a gente de algum modo... Que incomoda. 

Dois colegas universitários, em uma pesquisa a cerca das redes sociais, questionaram sobre os receios que as pessoas têm frente a possibilidade real do encontro com quem só é conhecido online. Homes e mulheres expressaram "medos" diferentes. Drasticamente diferentes, devo dizer.

De modo geral, as mulheres têm medo de que seu online date seja um serial killer, um louco, um alucinado, que possa lhe fazer mal de algum modo (principalmente um mal físico).

De modo geral, os homens têm medo que sua online date seja gorda. 

Sim. Medo de que a mulher com quem trocou mensagens, que notou certo interesse em comum, de quem já viu fotos de perfil, seja, na vida real, "alguém gordo".

Com este conhecimento, os dois estudantes resolveram filmar a reação de representantes de ambos os gêneros frente ao encontro com seu online date mais pesado do que nas fotos da rede social. 

Para isso, pediram a um homem e uma mulher, que marcassem encontros através de uma rede social para solteiros, e fossem socializar com seus pares usando uma maquiagem-de-excesso-de-peso. O resultado? Ah...

Não gosto de "defender" um lado e atacar o outro - até porque não creio que o problema está em um lado só e, talvez antes de tudo, que homens e mulheres ocupem lados opostos na vida - mas, para fins de coerência, preciso considerar aqui a distinção de gênero. 

Os homens, arrepiados com seus grandes pesadelos de ter um encontro com uma mulher gorda, não esconderam a confusão entre a pessoa que acreditavam que veriam e a que estavam de fato encontrando. Todos fizeram referência explícita ao peso da moça. Muitos se mantiveram inquietos, desconfortáveis e distantes. Todos a deixaram sozinha na mesa do café. Um deles, nem sequer sentou-se com ela. Outro, disse que era casado. Outro, que não gostava de "ser enganado". Outro pediu licença para ir ao banheiro e não mais voltou.

As mulheres, ao se depararem com um homem bem mais pesado do que nas fotos do perfil social, deixaram transparecer certa confusão no reconhecimento do rapaz, mas o comportamento foi bastante diferente. Todas o acompanharam no sofá, conversaram e sorriram. Uma o acompanhou no café. Outra, aceitou a brincadeira de comparar o tamanho das mãos, tocando a sua na dele. Outra, o deu um beijo na boca. 

Temos então aquilo que tanto falamos do preconceito à pessoa com excesso de peso. A fobia masculina superou a educação e o respeito para com o próximo. Posso estar errada e sugestionada com meus próprios pensamentos... Mas, uma vez que a mulher é reduzida ao seu coro, se ele não agradou, ela deixa de ser interessante, e assim, não importa se ela vai ficar lá sozinha, sentadinha na mesa do café.

Creio verdadeiramente que as generalizações são falhas, e que as pessoas, a despeito do gênero, classe social e cultura, são únicas - que algum homem poderia não se importar com  o excesso de peso da moça e que alguma mulher poderia se importar com o excesso de peso do rapaz... Mas, o que a experiência reafirmou, foi que o peso é (sim) uma questão social e, quando considerado com o viés do gênero, se torna indiscutivelmente determinante. 

Tristemente, a mulher segue reduzida à seu corpo...



https://estilo.catracalivre.com.br/modelos/experimento-explora-a-rejeicao-que-pessoas-acima-do-peso-sofrem/

sábado, 27 de setembro de 2014

Glúten & O Globo Repórter

Eu sabia que seria assim. 
Tinha certeza. 

Eis que o Globo Repórter quis falar agora do pão. E assim o fez. 
"Da onde vem, o que faz, como ele te engorda...? Veja no Globo Repórter!".

E cá voltamos nós para o dilema pós-estrago midiático. Sei que já escrevi sobre isso - exatamente a respeito deste programa - mas não posso evitar: é preciso lembrar que o programa é um produto cultural, que precisa "se vender". 

Quanto mais gente assistir, melhor... Claramente, a escolha do tema foi assertiva: pauta polêmica (pela falta absoluta de consenso e da grande legião de "seguidores doutrinatarios"), pela presença constante do objeto da discussão na vida cotidiana (quem não come pão?) e, sobretudo, pela relação cruel com a vedete contemporânea da "perda de peso". 

Ótimo. Jornalistas e editores fizeram a lição de casa direitinho: e tiveram seu produto consumido em larga escala. 

Infelizmente, para quem trabalha com a nutrição como "coisa seria", para quem a respeita enquanto ciência, para quem literalmente vive dela, foi - novamente é como de consume - uma tristeza. 

Na alimentação não há vilões e mocinhos. Não existem receitas milagrosas. Não há privação desnecessária que seja a resolução dos problemas da vida - muito menos da "perda de peso". 

Enquanto profissional da área - que terá muito trabalho nas próximas semanas para minimizar o eco gerado em rede nacional - vale lembrar que não há comprovação científica suficiente para a retirada do glúten da dieta de indivíduos saudáveis, e o Conselho que ampara as resoluções e normativas da nossa prática profissional, carimba em baixo. É possível, inclusive, denunciar quem vai contra... Ou, melhor, quem vai a favor da maré da mídia.  

Mas é intrigante como gostamos de promessas e soluções... Como gostamos de uma restrição. E, mais interessante ainda, adoramos a chancela de "qualidade" advinda do respeito adquirido da grande mídia. 

Bom, vamos enfrente... Qual será a nova maravilha? Qual será o novo "veneno"? Sigo ansiosa no aguardo. 


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Nosso corpo nos representa, mas não nos resume.

Não é difícil alguém me perguntar o motivo desta "história de comentar contra o corpo ideal" ser tão importante para mim...

Me perguntam, sobretudo, sob a ótica do julgamento - de como sou, e com o que trabalho (da carreira e da especialização que escolhi). Me perguntam como se fosse óbvio buscar essa "tal beleza", e como se eu estivesse "errada" em considerar que talvez (só talvez, aqui com um pingo de ironia), fosse ok não ser mais um representante do padrão. Alguns me perguntam se eu não "canso de bater na mesma tecla", e outros, se a minha atitude não seria "pró-obesidade". (!)

Pois então... A tudo isso, respondo com outra pergunta: por que para todo-o-mundo, o corpo da mulher é tão importante? Mais importante do que ela mesma? Por que a mulher é tão objetificada, sexualizada, reconstruída e seu corpo é tido como "moeda de troca"?

Ao meu ver, o erro na interpretação está justamente em considerar que o assunto termina em si mesmo: no corpo.

O questionamento, por sua vez, reside na própria imediata relação: mulher = corpo.

Sim, temos um corpo, mas ele não nos determina absolutamente. 

Somos mulheres. Filhas, mães, avós, namoradas, esposas, amigas... Somos professoras, advogadas, escritoras, médicas, donas de casa, executivas... Temos tarefas a fazer, responsabilidades para lidar, prazos à cumprir e sorrisos a dar... Temos mais do que formas.

Vagando por aí - nos pensamentos e na internet - cheguei a um artigo de uma colaboradora de um jornal norte americano, que publicou uma coluna especial sobre seus 12 anos de casada, e a felicidade de sua vida. Ela o fez brilhantemente e coroou seu trabalho com fotos do seu dia especial.

Sobre sua linda história de amor e de companheirismo, sabe o que mais chamou a atenção? O que mais lhe rendeu comentários? O seu corpo.

De seu vestido branco, foi sinalizado como lhe marcava "as gorduras", de seu rosto radiante, ressaltaram seu "duplo queijo" e de seu esposo, a "coragem" em se casar com alguém "como ela".

Triste...

Pelas ofensas gratuitas e pelas duras palavras de julgamento - inquestionável. Muito triste pelo fato de que o corpo feminino foi mais relevante do que tudo. Se sobressaiu e a definiu.

Lamentável o reducionismo social da mulher às suas formas...

Pois então, será mesmo que eu preciso defender meus motivos para "bater na mesma tecla"? Ué,  e quem insiste em perceber a mulher como mero corpo (tanto os homens, como as próprias mulheres) também não o faz?

Enquanto acreditar que nosso corpo nos representa, mas não nos resume, eu sigo por aqui. Quem sabe mais alguém me acompanhe. 




http://m.xojane.com/it-happened-to-me/it-happened-to-me-i-wrote-an-article-about-marriage-and-all-anyone-noticed-is-that-im-fat?utm_source=upworthy&utm_medium=pubexchange

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

E os medicamentos voltaram...

Pois é... Eis que chegou o dia da votação final do projeto de (re)comercialização dos medicamentos “emagrecedores” – este projeto foi lançado na Câmara dos Deputados em abril deste ano, pelo Excelentíssimo Sr. Beto Albuquerque (do PMDB de Alagoas).

Em uma retrospectiva breve, os medicamentos em questão são aqueles que, em 2011, haviam sido proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Na época, os profissionais do dado órgão alegaram que, através de todos os estudos e resultados populacionais, os medicamentos avaliados ofereciam mais malefícios à saúde de seus usuários, do que a real conquista dos benefícios que buscavam. Mais ainda, seu uso indiscriminado,  como alternativa (rápida) para o emagrecimento, era inegável.  
Aos meus olhos, a conduta da ANVISA materializou o respeito com o organismo e, no âmbito social, um enorme benefício à saúde pública.

 O projeto de decreto legislativo, diferente das leis, não precisa ser sancionado pelo presidente para que entre em vigor, basta ser “aceito” através do voto dos senadores. Assim sendo, após o resultado da votação de 02 de setembro deste ano, estamos prestes a ter a reinserção destes produtos no mercado.

Lamentável.

De início, lamentável pelos resultados obtidos a partir do uso do medicamento. Queda de metabolismo, perda de massa muscular, pouca qualidade de manutenção dos “resultados”: peso perdido sem qualidade, e com grandiosíssima chance de efeito rebote, tornando o emagrecimento subsequente ainda mais difícil.

Mais adiante, lamentável pela sua condução. A medida será tomada a partir do consenso de senadores. Com todo o respeito aos seus cargos... Não creio que tenham expertise suficiente para determinar se dado medicamento é “bom” ou “ruim” à saúde da população. Sobre eles deveriam recair as decisões a partir das informações coletadas com os estudiosos no assunto – no caso, estes seriam a ANVISA, que proibiu a venda.

Mais além, lamentável pelos segundos interesses. A indústria farmacêutica é forte (e isso, enquanto argumento, basta).

Cá entre nós, este decreto legislativo é um retrocesso, não apenas na prática mas também na teoria do controle do peso, mais ainda quando se considera a saúde coletiva e o bem estar de uma sociedade.

Uma pena. Uma tristeza. Enfrentar conflitos de interesse sempre é muito difícil.


Creio que mais esforços deveriam ser somados em busca de políticas públicas em prol da saúde e da qualidade de vida da população, e que isto é um dever de todos os cargos políticos. No entanto, este decreto aqui, nada agrega a este favor... Aliás, muito pelo contrário.